segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Ensino Médio, a Geração "P" e o nosso porvir

Caros,


Já pipocam por toda a Net comentários de especialistas em educação, que tentam encontrar soluções para o nosso ensino médio, especialmente agora que o MEC publicou os resultados do IDEB.

Já ouví de tudo. Gente falando que os professores são os culpados, pois seriam incompetentes e despreparados, gente falando que são os governos, que deixaram de investir nessa modalidade de ensino, e tem até gente criticando o ensino médio em sí, afirmando que "É mal desenhado, concebido, tem excesso de disciplinas, currículo pesado.", conforme afirmação da professora da Unicamp e ex-secretária da Educação do Estado de São Paulo Maria Helena Guimarães Castro, em entrevista para o site Folha de São Paulo... veja aqui: Especialistas veem falta de professor e pedem reforma no ensino médio

Sou professor de Física no ensino médio noturno, em uma escola da rede estadual, aqui onde moro, em Campo Grande, MS, e acredito que possa falar com bastante conhecimento de causa: O problema do ensino médio não está só nele, mas sim em nossa visão de sociedade, que hoje está em vigor no nosso país. Já passou da hora de alguém falar isso.

Inegavelmente avançamos em questões sociais que envergonhavam a todos nós, neste início de século. O povo brasileiro vive melhor, e aparenta ser mais feliz. Foram-se os anos de repressão e perseguições, e no nosso horizonte, vislumbramos uma era de prosperidade e crescimento econômico.

Conhecem a parábola da borboleta, que queria sair de seu casulo, e não conseguia, por mais que lutasse? Até que apareceu uma pessoa e, vendo a luta desesperada dessa borboleta, decidiu ajudá-la, quebrou o casulo e a retirou dessa prisão. Resultado... as asas dessa borboleta não se desenvolveram o suficiente, pois aquele esforço todo para sair de seu casulo era o estímulo que suas asas necessitavam para crescerem, e isso acabou condenando-a a ficar se arrastando pelo chão para o resto da vida, ao invés de voar pelo céu, como suas outras colegas fazem.

Comparo alguns desses avanços sociais com essa parábola. O bolsa-família, o bolsa-escola, a progressão continuada e o regime de cotas nas Universidades, se por um lado aliviaram o sofrimento do povo brasileiro, por outro está criando uma "Geração P" de jovens, parafraseando Rob Asghar, ensaísta e articulista norte-americano, ao cunhar a frase "Geração N", veja aqui: "Geração N": Estamos criando jovens incapazes?

Se no caso dos americanos, o "N" quer dizer narcisista, por conta dos excessos de estímulos positivos que os pais estão dando aos seus filhos, fazendo-os acreditarem que eles merecem de tudo, sem se esforçarem para conquistarem o que querem, no nosso caso, o "P" é de "pedinte", isto é, estamos criando uma geração de jovens que se acostumaram a ser sustentados pelo Estado, cobrando dele até mesmo uma vaga para entrarem nas Universidades. Lá nos EUA são as famílias que se esforçam para sustentarem as vaidades de seus filhos, enquanto aqui é o governo que se esmera em "atender o social", "facilitando" excessivamente o acesso a alimentação, moradia e educação.

Até que ponto essas atitudes trazem benefícios, e até que ponto trazem problemas? Que existem desafortunados e vítimas de calamidades que necessitam de amparo do estado para reconstruírem suas vidas, isso todos sabemos. Mas ajudar alguém que pode lutar e vencer por esforço próprio, não equivale a tolher nele a iniciativa para ser o construtor do seu futuro?

Não devemos esperar que mais anos se passem, que mais pessoas estraguem os seus futuros, que mais jovens se entreguem aos vícios e ao ócio para percebermos o erro que estamos cometendo, ao adotarmos esse modelo de gestão social. Precisamos tomar alguma atitude logo, antes que seja tarde demais para nossos jovens.

Mas, ao invés disso, o que estamos vendo? Nosso governo aumentando ainda mais as “facilidades”, sempre afirmando que estão fazendo “tudo pelo social”. Vejam o caso do ENEN: agora já não é mais exigido que nossos jovens tenham cursado o ensino médio para se matricularem nele. Basta entrar no site e fazer sua matrícula, que já se habilitam a disputarem uma vaga para entrar em uma universidade. Para que cursar o ensino médio? E, claro, sempre existe a possibilidade de se alegar algum grau de parentesco com índios ou negros, para solicitarem a inclusão em um regime de cotas.

Que jovem precisa se esforçar para entrar em uma universidade, com tantas facilidades?

Vejo com muito temor algumas “mentes brilhantes” do cenário educacional brasileiro afirmarem que o ensino médio deve mudar. Que ele está fora de nossa realidade, ao exigir dos jovens o domínio de “complexas habilidades” que nem sempre tem utilidade prática em nossa sociedade. Talvez algumas dessas citadas “habilidades” nem tenham utilidade prática mesmo, mas inegavelmente elas despertam a capacidade de raciocínio e nos estimulam a buscarem as soluções de problemas que nunca imaginamos. Qual a utilidade de repetir a experiência de Eratóstenes, para medir o raio de curvatura da Terra? Todos nós já sabemos que a Terra é redonda, e que seu raio médio é de aproximadamente 6.371 km... então, para que repetir algo que foi feito a 2.300 anos atrás, não é? Aqui, quero fazer uma outra comparação com nossa sociedade.

Alguns anos atrás, o sistema viário brasileiro entrou em crise. Nossas estradas estavam se acabando, por falta de conservação e investimentos. Qual a solução encontrada pelo governo brasileiro, para esse problema? Diminuam a velocidade! E os limites de velocidades em nossas estradas foram reduzidos. O certo não seria recuperar essas estradas? Reformá-las e modernizá-las?

Com o ensino médio estão querendo fazer o mesmo... banalizá-lo! Querem torná-lo “palatável”, para os que estão se acostumando a terem tudo de “mão beijada”, isto é, para a nossa geração de pedintes terem o que querem... um certificado de conclusão do ensino médio.

Querem mesmo resolver o problema? Por favor, então valorizem a profissão de professor, e instituam o regime de meritocracia em nossa sociedade. São as únicas soluções realmente eficazes para esse problema. Qualquer outra não passa de “discurso politiqueiro”, daqueles que querem perpetuarem seus “currais eleitorais” junto à nossa “Geração P”.

Não gostou, não concorda, ou pensa diferente? Vamos discutir isso? Comente aqui... mostre que você não pertence a essa geração de pedintes que está aí, em nosso País!


Prof. Suintila